Visão de futuro

Esses dias fiz uma pesquisa com estudantes de ensino médio, numa escola pública do interior. Duas perguntas: 

– Quais te parecem ser os piores problemas do mundo?

– Que soluções tu propõe pra isso?

Deixei livre pra responderem como quisessem. Um guri escreveu um conto com um herói solitário que perambulava de máscara e macacão até encontrar, no deserto urbano, uma plantinha teimosa brotando no concreto. Outro descreveu uma tecnoditadura. Uma sociedade onde as pessoas têm tudo programado por sistemas virtuais que lhes dizem o que comer, quando, onde ir e por qual trajeto. Um mundo que não usa o sistema de escolha humana porque “assim é melhor pra todos”, “causa menos danos ambientais”. Um mundo onde as pessoas podem se dedicar mais a cuidar do próprio corpo (da “saúde”), e isso não precisa ter o aspecto humano antigo. Esse corpo pode ser robótico ou ser uma mistura com outro bicho menos mau. A maior liberdade desse mundo consiste em ter um rabo. 

 Já outros fizeram poemas em que o problema do mundo é nada menos do que o amor. 

Aliás, mais de uma criatura entendeu que minha pergunta era sobre os “piores poemas do mundo”. Talvez por que a minha letra é ruim, talvez por que estávamos numa aula de “português”, talvez por que até então, quando decidi mergulhar no açude lamacento da filosofia, só tínhamos falado de poema mesmo, ou simplesmente porque tem vários jovens ainda distraídos, sensíveis, humanos demais pra falar em problemas, quando veem tanta poesia na vida. 

A solução, no caso de quem achou que a pergunta era sobre os piores poemas, foi “trabalhar mais a forma, não pensar só no sentimento, que é importante, mas a forma tem que ter também”. O que demonstra que aprenderam algo com o profe.

Quanto à solução pro amor, parece que “é uma questão de sorte”.

Pra aqueles tantos que apontaram que os problemas são a destruição do planeta, a violência e a miséria, as ideias levavam a dois caminhos: ou o governo deve punir os desviantes com pena de morte e “obrigar os vagabundos a trabalhar”, ou o governo deve investir mais na educação e em programas ambientais, essas coisas que todo mundo diz pra agradar o representante do status quo; no caso, o tchitcher. 

Mas não era isso que eu tava buscando. 

Sob aquela camada banal de perguntas inspiradoras de redação escolar, o que eu pretendia era identificar o que a moçada de 15, 16 anos tá pensando de verdade. O que eles imaginam pro futuro. Se vão criar novas saídas, ou entradas, já que as propostas das gerações anteriores falharam. 

Então gostei um pouco mais das respostas que diziam assim: o maior problema do mundo é os jovens não precisarem fazer tantas coisas, e daí serem chamados de incompetentes. Isso é injusto, questionaram. Afinal de contas, “se tem menos trabalho por causa dos robôs, não é culpa nossa”. Isso tem um efeito colateral: o que fazer com o tempo de sobra? Esse vazio não é visto como liberdade, mas como roubo. 

E a grande descoberta da pesquisa foi a maioria dizer que o problema do mundo é o ser humano. A solução? Eliminá-lo. 

Isso não geraria um problema maior?, perguntei, naquela lógica de que agressividade gera mais agressividade, ou estupidez, que é a violência espiritual. Daí tentaram me convencer de que dá pra acabar com o humano sem violência. Alguém falou em “métodos científicos”, que é um conceito que me assusta. Método científico não é um nome técnico pra “eliminação do sujeito?”

Só que depois, agora aqui no solzinho, fiquei pensando. Acho que entendi o que os jovens não conseguiram me explicar, mas intuem com legitimidade. 

O humano, aí é que tá, o humano termina com a chegada do tal “pós-humano”, com a reificação, que não tem nada a ver com nos tornarmos reis, mas o contrário disso: coisas. O humano termina graças à prescindibilidade do ser vivo, tosco, lindo e fedorento que somos. É nesse sentido que os jovens se referem ao fim da humanidade como solução. Pra eles, tem que acabar o bicho. 

Roubo, robô… Fiquei jogando com essas pedras na boca. E com aquela outra, mais farelenta, do “pós-humano”. Isso não ecoa uma antiga profecia? Viemos do pó, ao pó retornaremos. Ou era uma “sabedoria?”

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