Santa Catarina, a santa mesmo

Diz que a santa protetora dos leitores é a Catarina de Alexandria. Uma leitora, uma tradutora, a Catarina, naqueles anos de imperialismo romano na África, em Alexandria, onde tinha uma famosa biblioteca. 

Daí os romanos, aquela coisa, sob os auspícios de Marte prenderam ela, uma cristã, uma subversiva, e botaram na roda-viva pra debater com os especialistas do momento. Ninguém sabe as palavras exatas, mas diz que ela convenceu os véio tudo a se converter pra modernidade, na época, que era um deus só, em vez de mil. 

Daí torturaram ela, que tinha o hábito arriscado, até hoje, da parresia: a coragem de falar o que tu pensa. Prenderam a Catarina em outra roda, um troço horrendo de madeira com pontas afiadas de ferro, umas facas. Só que a roda quebrou, rachou no meio, essa roda-morta, esse círculo fechado do status quo. O único jeito, pros milicos romanos, foi cortar a cabeça da Catarina. A cabeça, o único jeito de fazê-la parar de pensar.

E os anjos a levaram pro Sinai, onde ela poderia descansar das misérias terrenas e ficar lendo, guiando os leitores, todo mundo que não terceiriza a própria inteligência usando robôs, todo mundo que se nega a trocar cérebro por cérbero.

Salve Catarina!

Hoje, pelo que li, não tem como saber se ela foi um ser humano real. Jesus também, vai saber. E Sócrates. E não importa. São personagens que se tornaram incontornáveis. Ganharam vida própria, pra além de realmente terem sofrido uma vida que nem a nossa, burocrática.

Vamos chamar isso de literatura. O efeito duma criação poderosa a partir de algum personagem. A Catarina, por exemplo. Será que não foi inspirada na Hipátia, outra sábia egípcia dos anos 300? 

Ela deve rir dessa pergunta. De dentro dos livros, das representações pictóricas, das nuvens que nos miram pelas grades da biblioteca, a Catarina deve rir dessa pergunta.

Por que não poderiam existir as duas? A Hipátia e a Catarina devem rir, já que as duas ficaram na história como pensadoras, cientistas, referências de professores, estudantes, criadores de mito. Elas são as defensoras da pergunta. 

E teria sentido a padroeira da literatura não ser ela mesma uma manifestação da graça literária? Que a santa dos intelectuais seja um mistério intelectual, um mistério sobre a própria existência, isso está técnica e maravilhosamente correto. 

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