É terrível descobrir de repente que, durante a vida inteira, a gente não disse nada além da verdade. Por isso é importante roubar umas ideias dos outros, nem que chamemos isso de aprendizado.
Autor: Paulo Damin
Rios aéreos, cidade baixa
Décadas atrás, fui amigo de um grupo que se propunha a fazer literatura explorando apenas a banalidade. Um exercício recorrente era escolher de modo aleatório uma pessoa na rua e escrever listas de possibilidades sobre a vida dela. Por exemplo, um homem esperando um ônibus: está indo pra casa, onde o espera um filho desempregado; se fosse meu vô, iria para o INPS; quando criança, queria ser gari ou vendedor de gás, só pra ficar dependurado num caminhão; vai entrar no ônibus e continuar o assunto de ontem (rios aéreos) com o motorista.
Resenha da Ospa
Era uma vez um guri, lá do interior, que na casa dele tinha uma geladeira que pegava a rádio Cultura, depois das sete da noite de domingo.
Certa vez, ele estava tomando mate e comendo rapadura de melado, aí a mulher da rádio anunciou que, dali a uns dias, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre ia fazer um concerto.
Professor Faraco
Uma vez me perguntaram o que eu gostava de ler e eu disse Sergio Faraco. Riram porque liam, diziam, Tchekov, Hemingway. Livros complexos, diziam. Daí eu criei vergonha e fui ler Tchekov, Hemingway. Bem tranquilo. É tipo as coisas que o Faraco conta, só que na Rússia ou na França.
99 corruíras
Esses tempos falei do Dalton Trevisan aqui. Falei que ele só lia Machado de Assis desde que ficou viúvo, e que em Caxias teria feito sucesso com esse sobrenome.
Pois o Dalton, agora, enviuvou todos os contistas da nação.