Como qualquer cidadão da América Latina, eu já tinha recebido o alerta décadas atrás: Hercólubus, o planeta vermelho, está prestes a se chocar com a Terra. Leia o livro, aquela coisa.
Porém, como todo cidadão da América Latina, não dei atenção. Tem tanta coisa se chocando com a gente que um apocalipse a mais não faria diferença.
Então, o que aconteceu: numa rodoviária sebosa por aí, eis que vejo o famoso livro de V. M. Rabolú, brilhando numa cadeira como um planeta se aproximando deste punhado de barro que vos fala.
Comecei a ler e senti logo o impacto que a sabedoria gera sobre as bestas selvagens:
“Este livro eu escrevi com muito sacrifício, deitado numa cama sem poder me levantar nem sentar; mas, vendo a necessidade que há de dar aviso à Humanidade sobre o cataclismo que vem, fiz um grande esforço.
Esta mensagem dedico à Humanidade, como último recurso, porque não há mais nada a fazer”.
É isso aí. A escrita como último gesto humano.
E nada mais literatura fantástica do que piração apocalítica, fim-do-mundismo, terraplanismo e tal. No fundo, é alguém se achando a última bolachinha do pacote, com esperanças de ser comido e chegar à transcendência pela escatologia.
Isso, no Hercólubus, ganha tons dramáticos pela dimensão autoficcional, com o narrador dizendo que conhece Vênus e Marte, que viaja pra lá por meio de sonhos conscientes, dando dicas de mantras que tu pode usar pra navegar no cosmos e pra que os extraterrestres avançados venham te resgatar deste lodaçal amarelento.
“A lei em Marte e nos demais planetas é o mútuo respeito entre si, com os demais, com a vida e com tudo. Eles respeitam o livre arbítrio de cada pessoa. Não é como estes terrícolas que querem apoderar-se do mundo a pura bala e ameaças. Estão muito equivocados os senhores americanos com seus filmes e suas revistas”.
É uma obra anti-imperialista, como se vê. Rabolú, um colombiano no fim do século XX, não era tão alucinado a ponto de acreditar em ianque.
O livro tem também um tom melancólico. É que o narrador de Hercólubus manifesta a depressão característica de quem, diferentemente daquele outro fã de naves espaciais, Arnaldo Baptista, não é capaz de sentir o barato de ser ser humano. Pois o Rabolú se considera um monstro em comparação com a perfeição dos venusianos e marcianos:
“Testa larga ou ampla, olhos azuis, nariz reto, cabelos louros e uma inteligência surpreendente. Medem mais ou menos de 1,30 a 1,40 metros de estatura, não há mais altos ou mais baixos; não há barrigudos nem se vêem pessoas desfiguradas, todos têm figuras angélicas”.
Acho, não sei, mas se não tivesse todo um apelo à castidade, talvez a história rendesse mais. Não teria por que falar no deus católico, por exemplo, num conto sobre viagens astrais que dependem apenas de meditação e abertura mental. Será que o personagem não se contentaria com um belo mosteiro terrícola de monges quietos?
Esse é o problema, segundo o narrador. A humanidade está condenada porque somos um bando de gorilas fornicadores:
“Todas essas atrocidades sexuais não se vêem senão no nosso planeta, porque nos outros sabem reproduzir-se sem cair na fornicação”.
Então, no fim, o livro não satisfaz a expectativa. Principalmente porque não fala nada do tal Hercólubus. Agora minha missão é achar aquele do Tim Maia. Daí volto aqui. Abraço.