Complexo de Ismene

Um manuscrito grego encontrado na região de Mênfis, Egito, aponta para a existência de uma contemporânea de Platão que teria escrito duas tragédias, intituladas Jocasta e Ismene

A primeira contava a história de uma senhora que, após a morte do marido, se casou inadvertidamente com o filho que havia sido levado embora, quando bebê. A segunda tragédia era sobre uma jovem pertencente a uma família cheia de problemas. O manuscrito é anônimo, razão pela qual se imagina que tenha sido redigido por uma mulher (se o autor fosse homem, poderia ter assinado sem problemas, de acordo com as regras da época).

Não sei de nenhuma história famosa em que a Ismene seja protagonista. E isso que ela faz parte da segunda família mais notável do Ocidente, os Labdácios, composta por gente como Laio, Jocasta, Édipo, Etéocles, Polinices e Antígona. Todos personagens largamente representadas e revividas na literatura, na filosofia, na psicologia. Todo mundo na família de Ismene tem um papel principal em grandes tragédias, menos ela. Logo ela que viveu a maior tragédia de todas: o drama, que é a tragédia sem fim.

Suponho que Ismene não foi homenageada com uma peça de teatro clássico porque ela não é uma personagem rigorosamente trágica. Ela não é teimosa, portanto não é digna de uma punição fatal, como acontece com seus irmãos Etéocles e Polinices, para não falarmos logo de Antígona. A trajetória de Ismene é constante. O máximo de ação que ela realiza é se mostrar contraditória – mas isso é apenas reflexo da sua normalidade. 

Reflexo: Ismene parece que só é representada para contrastar com a intrépida Antígona, para dar ainda mais evidência ao domínio do resto da família. Ismene passa o tempo todo vendo como as proezas dos outros os levam ao auge e à inevitável ruína. Nas dramaturgias em que aparece, as intervenções dela são para perguntar: “Tu vai realmente fazer isso? Não vê que vai dar errado?” 

Ela é a voz presente do futuro: o oráculo. Mas um oráculo que ninguém leva a sério, que ninguém ouve: a voz do público. Ela é a vida real. Se for ouvida, não há teatro clássico. Ismene traz uma razão alheia ao destino da tragédia, ela traz o drama. Não virou tema de tragédia porque ela é uma personagem dramática.

Eis o Complexo de Ismene: ela não quer se incomodar, só quer ficar em paz, nem que para isso ela precise seguir as leis, as injustas leis. Busca a conciliação entre o céu e a terra, entre os deuses e as pessoas. É racional. Sangra e estanca. Acha que a vida é assim mesmo. 

A Ismene é uma querida. 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *