Vim falar dum livro alemão, A assombrosa história do homem do cavalo branco, mas também dum livro brasileiro, O centauro bronco. Duas traduções que Mauricio Mendonça Cardozo fez pra Der Schimmelreiter, um romance de Theodor Storm, de 1888. Dois livros que são mais do que a soma de um mais um.
O tradutor fez tanto uma tradução convencional quanto uma reescrita criativa.
A tradução convencional (A assombrosa história) é localizada na Alemanha mesmo, no mar do norte, aquela friaca, aquele aguaceiro. Nomes meio dinamarqueses. Gorros (frísios, no caso). Velhos professores tomando grogue em obscuras tabernas.
A reescrita criativa (O centauro bronco) é localizada no sertão brasileiro canônico, aquele de José de Alencar, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, a partir da ideia de que “o mar vai virar sertão”. Que belo mote pra tradução. Daí que foi tudo traduzido: os nomes da alemoada, as relações sociais (lá tem o senhor-dos-diques, aqui tem o coroné), o Euclides da Geometria lá, o Euclides da Cunha aqui, e a linguagem – mais do que pro português, mais do que pro brasileiro, o Mauricio Cardozo fez ali uma mistura que é praticamente uma argamassa pra sustentar barragens.
A edição é da UFPR, de 2006, e foi publicada numa caixinha com os dois livros juntos, mas independentes. De modo que tem pelo menos três maneiras de ler:
1) primeiro a tradução convencional – o livro alemão – e depois a recriação brasileira;
2) primeiro a versão verão, depois a alemã;
3) os dois ao mesmo tempo, parágrafo a “paráfo”, linha a linha, da várzea encharcada ao solo seco, e do Hauke ao Naldo, da Elke à Deodora.
Eu li do jeito 1, bem dizer. É que não consegui ler toda a recriação brasileira, pela preguiça que tenho com guimarrosismos e representações fonéticas do tipo “falá”, “fechá”, quando na verdade todo brasileiro, rico ou pobre, fala assim. E pra provar que não é só má vontade minha, fiz um livro sobre isso: Estudo de causo. Foi reeditado em 2025 pela editora Trôpego, se alguém quiser dar uma olhada.
Então vou comentar basicamente o livro convencional, o texto como a gente espera que sejam as traduções (tá bem boa essa). O outro, a recriação, o próprio Mauricio Cardozo comentou melhor no posfácio dele, que é desses textos dignos de entrar em antologias sobre tradução. Minhas observações serão apenas comparativas.
O romance é uma baita história de engenharia, bem coisa de alemão. “O sujeito fica mal consigo mesmo se não consegue dedicar-se a um trabalho de verdade” – taqui sumarizada a ética tedesca, na página 26. O povo lá se defendendo contra os horrores do mar do norte – água gelada, braba, torta – e um piá geniozinho que aprende geometria em holandês.
Aliás, pra isso, primeiro ele tem que aprender holandês, e por aí a gente vai vendo as camadas de literatura e de gramática, de história e geografia, de lenda e de ciência. Um causo realista de terror, o fantástico humano, demasiado humano, de amor teimoso, romântico, capitalista:
“Diziam que, se alguém, algum dia, quisesse construir uma barragem capaz de resistir à força daquele canal, que seria preciso prender ali dentro alguma coisa viva. E enterrá-la junto. Ao construírem o dique do outro lado da enseada, há uns cem anos, dizem que enterraram lá uma criança cigana, que teriam comprado da própria mãe por muito dinheiro. Mas hoje em dia ninguém venderia o próprio filho!”
Isso quem diz é a Elke, esposa de Hauke, o herói. Que bom coração ela tem, achando que “compraram” uma criança, e “por muito dinheiro”.
O diálogo segue em termos administrativos e financeiros. Me senti num salão comunitário do Vale Real, vendo esse casal romântico que se junta pra conspirar e administrar terras e diques. “Temos bastante serviço, vamos trabalhar unidos”, é assim que os pombinhos declaram sua paixão. E assim:
“O que lucraremos com as terras lá embaixo superará, e em muito, os custos da obra. Até mesmo as despesas de manutenção do dique velho serão, por algum tempo, cobertas pelo novo dique. Além do mais, nós mesmos faremos o trabalho: temos na comunidade mais de oitenta cavalos atrelados, e braço forte é o que não falta por aqui. Você não me terá feito senhor-dos-diques em vão. Quero mostrar a todos o senhor-dos-diques que eu sou.
Agachada diante dele, a mulher olhava-o preocupada. Levantou-se e deu um longo suspiro:
— Preciso continuar o meu trabalho — disse ela, acariciando lentamente o rosto do marido. — E você, faça o teu, Hauke!
— Amém, Elke — disse ele, abrindo um sorriso cirunspecto. — Não vai faltar trabalho pra nós dois!”
E aqui um trechinho da versão sertaneja, pra mode ocês ver como que o homem fez:
“Acocorada no diante dele, a mulher fazia o preocupado no viso. Levantou-se, tragou um longo no suspiro:
— Tenho o meu de-fazer — Deodora, demorosa de carícia no rosto do marido. — E ocê, faça o teu!
— Amén, améns — Naldo, medindo o circunspecto no sorriso. — Trabalho não tem o que falte, pra nós dois!”
A história tem uma dimensão filosófica. É um caso de obsessão, sobre se defender contra o mar, o frio, a chuva, o vento, metáforas de morte, miséria, solidão. Trata-se do trabalho sisífico de manter um dique, a terra que se esfarela contra a água que tem toda a paciência, todo o tempo do mundo pra engolir o que quiser. As relações interpessoais, nesse contexto, são secundárias, a não ser que sirvam ao propósito de lutar contra o mundo, pra reformar a natureza.
E a sabedoria, intuída e confirmada ao longo do embate: o dique não tem que ser um muro, uma parede perpendicular contra a água, mas sim um obstáculo que respeita a teimosia furiosa dela: uma elevação gradual, com a adicional negociação dos canais: a cedência. Não a força contra a força, mas a inteligência, o contorno, a tangente. Contra um problema irresolvível tu vai ficar batendo a cabeça? É melhor mudar o modo de ver.
Ciência! Só que em termos trágicos (Alemanha). No momento da tragédia, o que diz o herói? “Confesso que não cumpri com os deveres do meu ofício!”
E outro jeito de mudar o modo de ver é pelo fantástico. No caso desse romance, isso fica representado pelo cavalo, um meio de transporte para a fantasia. Quando o bicho entra no enredo é que as coisas começam a se aprumar. Tem outros bichos também, bastante significativos. Por matar um gato, por exemplo, o jovem herói antecipa o próprio destino. E a filha dele, depois, tem nada menos do que uma bela gaivota de estimação.
Sinto muita simpatia por tradutores que gostam de brincar. Tem uma escola boa no Brasil: Augusto de Campos, Haroldo, Paulo Leminski. Acho que a parte sertaneja dessa tradução ficou meio falsa, como já era o seu modelo guimarróseo, mas tudo bem. O romance do Theodor Storm é empolgante e eu recomendaria pra todo mundo que já morou na roça, pretende fazer isso ou simplesmente pra quem tem parentes, amigos, namoradas alemães.