Campeonato uruguaio. O Cerro tá perdendo pro Montevideo City por um a zero, em casa. Os dois são celeste e branco, mas o City hoje tá sintomaticamente de laranja.
Montevideo City é uma sucursal daquele de Manchester, com dinheiro árabe. O colonialismo agora se chama globalização.
O Cerro, por sua vez, é um clube tradicional da Villa del Cerro. Fica bem perto do rio da Prata, de onde vem a cerração que encobre o campo neste momento em que o zagueiro Lacoste quase faz um gol contra.
E chove.
Pros padrões uruguaios, o estádio do Cerro é imenso, naquele modelo olímpico, oval. Devem caber aí umas vinte mil pessoas, com folga pras japonas e o gesto de servir o mate.
O estádio meio vazio no fim de domingo, mas a torcida canta firme, em ritmo de candombe. Devem ser os mesmos que vi numa chamada pela rua, num fevereiro. Descendentes dos trabalhadores que protagonizaram a greve frigorífica em 1912 (ergue teus punhos, companheiro), obreiros que defendiam o salário como o goleiro Guruceaga defende hoje o time contrário, com capital sabe-se lá onde.
Opa, pênalti pro City, aos 53 do segundo tempo.
Enquanto esperamos pela decisão do juiz virtual, com sede sabe-se lá onde, lembremos aquela greve de 1912. O jornal anarquista El Hombre anunciava na época que “os operários do Cerro estão dispostos a defender à bala sua dignidade”.
O juiz no campo segue esperando a decisão do var. Os torcedores do Cerro se preparam em suas cinturas. Com as mãos. Suponho que estejam todos desarmados, dentro do estádio. Fazem silêncio nos tambores. Da parte do Montevideo City, nada, que eles não têm torcida.
Pênalti confirmado, dois a zero pra multinacional, na casa dos apáticos cerrenses.
Fim de domingo, fim da história. A chuva aumenta. Amanhã todos têm que levantar cedo pra trabalhar, buscar emprego, fazer de conta que vão atrás de emprego. Não vão formar uma Sociedade de Resistência, como em 1912, pra reivindicar dignidade, nem laboral (eita vocabulário de 1912), nem futebolística. Duvido até que os cerrenses acreditem em sindicatos, hoje.
O mundo mudou, a não ser no resultado. As empresas estrangeiras continuam ganhando.
Arriba las que luchan etc.