Pra homenagear a Legião Urbana, trinta anos após a ida de Renato Russo pra aquela dimensão onde voltamos a ser pura linguagem, fiz uma entrevista com um fã exemplar dessa banda.
O Lufe é psicólogo, tocador de violão, grande leitor e apreciador de futebol. Há dećadas a gente fala sobre Legião, e sobre como o Renato Russo foi importante pra nossa educação sentimental e intelectual.
Tem uma coisa, por exemplo, que é a visão de humanidade que o Renato apresentava nas letras. Tudo com uma vontade de buscar literatura mesmo, e de filosofar também. Por isso, suspeito, tem uns que não gostam: é uma banda que se levava a sério.
As inúmeras intertextualidades são prova disso. Da Bíblia a letras pop americanas, com o Camões no meio. Legião Urbana é coesão e coerência. Desde o primeiro disco a ideia (era uma banda de ideias) tá lá.
Mas agora deixo meu amigo falar.
Como foi que tu conheceu Legião Urbana?
Quando eu tinha oito anos, eu fui com meu amigo Fernando até a casa da irmã dele pra escutarmos os discos dela. As novidades no mercado nacional eram com a Josiane.
Entramos e pegamos o primeiro que vimos. A capa estava em cima da tampa do vinil. Uma capa com um cinza diferente, um cinza gesso, cinza metálico, cinza azulado ou azul acinzentado: As quatro estações. Acho que não tem como passar batido por essa capa. Não tinha nada demais, mas eu sabia, intuitivamente, que dentro daquela capa havia um disco extraordinário. Essa parece ser uma boa definição da Legião: não tem nada demais, mas é extraordinário.
O Fernando falou: essa banda é daquela que tocou na novela. “Pelado pelado?”, perguntei. Não, ele respondeu. É assim: “e eu gosto de meninos e meninas…” Ele ia colocar direto nessa música, mas eu falei pra gente escutar desde o início.
Primeira música: “Parece cocaína mas é só tristeza. Talvez tua cidade. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão…”
— Bem diferente do Ultraje, né?
Na sequência, Pais e filhos: “Estátuas e cofres e paredes pintadas, ninguém sabe o que aconteceu…”
Ainda hoje eu não sei bem o que aconteceu comigo na hora que eu escutei as duas primeiras músicas do Quatro estações. Cada ano que passa eu entendo um pouco mais, mas ainda falta muita coisa.
Acabava Pais e filhos e a gente retornava a agulha do toca-disco pra Há tempos. Ficamos nessa até escurecer. As outras músicas, cada um de nós iria escutar em outro momento. Por ora, Há tempos e Pais e filhos bastavam.
Voltamos pra casa silenciosos porque aquelas palavras docemente cantadas pelo Renato estavam se acomodando em nós, encontrando seu lugar. “Herdeiros são agora da virtude que perdemos… Os sonhos vão, e o resto é imperfeito… Quero colo! Só vou voltar depois das três… É preciso amar as pessoas, meu amor, disciplina é liberdade”.
Talvez a razão de eu ter ficado tão impressionado com As quatro estações, mesmo sem ter maturidade suficiente pra apreciar a obra, seja porque, em primeiro lugar, as músicas são realmente muito boas e, em segundo lugar, eu toquei na música.
Tudo bem que de certo modo a gente continua fazendo isso, pois escutamos música no celular. Mas não é a mesma coisa. Eu nem sei mais os nomes das músicas que eu escuto. Que dirá quem escreveu a letra e quem compôs a melodia. Se pá, nem teve ninguém e já é tudo IA há tempos.
Eu segurava o álbum na mão enquanto ouvia. É como se eu estivesse segurando a mão do Dado, do Renato, do Bonfá e do Mayrton Bahia (produtor do disco). Isso só o vinil é capaz de fazer.
Depois, com doze anos, eu já tinha condições de ser um iniciado legionário. E, outra tarde, com outros amigos, tive meu segundo encontro com a Legião.
Saímos da escola e fomos almoçar na casa de um colega. Um dos guris disse que tinha maconha. Na hora eu gelei e comecei a tremer feio porque achava que iria preso. Os caras me pouparam de fumar, mas eu tinha que ficar ali enquanto eles fumavam pra não parecer que eu era o maior medroso do mundo.
O dono da casa propôs: vamos ficar chapados a escutar um disco do meu pai. E sacou o V. Na hora eu não associei o V com As quatro estações. Até porque toda a minha atenção estava voltada pra não ser preso. Começou o disco e eu aos poucos fui reconhecendo aquela voz. Fui entrando no disco. Passou o medo de ser preso. Tava todo mundo tranquilo, relaxado. “E o vento vai levando tudo embora.” Nesse dia, eu voltei pra casa decidido a conhecer, de fato, a Legião Urbana.
Como foi pra ti a morte do Renato Russo?
Nessa época, em Esteio, havia uma locadora de CDs. Era um real a diária de cada um. Semanas antes do lançamento do A Tempestade, eu ia na locadora, depois do colégio, e perguntava se já tinha chegado o novo disco da legião. O cara tava até meio irritado comigo, e deu pra sentir o prazer dele ao me dizer “sim, chegou hoje cinco CDs, mas estão todos alugados (seu chato pra caralho)”.
Quando eu consegui o CD, voltei pra casa já olhando o encarte pra saber das letras. Ali eu vi que a coisa tava estranha. Então, quando surgiu a voz do Renato, na primeira música, já deu pra perceber que ele estava morrendo. A mensagem nas letras ao longo do álbum confirmava essa minha impressão. Então, alguns dias depois, quando o meu colega da oitava série falou que ouviu no bar da escola a notícia de que um cantor famoso morreu (ele não tava ligado na Legião), eu já arrematei: é o Renato Russo.
Eu não me recordo de ter ficado muito triste. Acho que uma das primeiras coisas que eu pensei, com uma baita dose de euforia, foi: bah! Agora a MTV vai mostrar um monte de coisas novas. Talvez uns shows. Vai ser massa. Daí logo em seguida veio o Uma outra estação e, na sequência, o acústico. A MTV, como era de se esperar, despejou todo o arquivo que tinha do Renato e da Legião. A Band também transmitiu um resumo de um show recente da banda, no Rio de Janeiro. De minha parte, eu ouvi todos os discos mais umas oitocentas vezes.
E agora vem uma coisa interessante, a título de curiosidade sobre o processo de luto. Por um tempo, em 1997/98 eu era o Renato Russo.
Com a minha guitarra e um pedestal imaginário, eu fazia concertos como se fosse o Renato Russo. Graças às revistinhas de cifra, eu sabia tocar na guitarra todas as músicas da Legião. Então, no meu quarto eu saí em turnê. Fazia um setlist referente à turnê de cada álbum. Ficava tocando guitarra e cantando. Imaginava uma estrutura de banda ao meu lado e na minha frente a plateia. Um show inesquecível foi o da turnê das Quatro estações, em Florianópolis. A galera tava ensandecida e a banda nos trinques.
P: O que tu pensa e sente quando ouve Legião hoje em dia?
Lufe: O que me impressiona é que ainda consigo descobrir algo nas músicas. Ainda encontro elementos que me dão barato. Tudo muito sutil, claro. Mas, agora, tenho a sensação de que A Fonte está secando. Embora eu ainda sinta um abrigo no Renato Russo. Taí! Essa é a palavra que define Legião Urbana pra mim: abrigo.
Já tem discos que eu não consigo mais escutar. O primeiro, por exemplo. O Uma outra estação também faz anos que eu não escuto. A não ser uma que outra, de forma avulsa. Acho que o único disco que eu pararia pra escutar é o V.
De uns anos pra cá, o Renato Russo e eu (prefiro falar no Renato Russo ao invés da Legião porque o vínculo que eu tenho é com ele. Tanto que a banda taí, fazendo revivals, mas não me desperta absolutamente nada) estamos nos afastando cada vez mais, em um processo lento e natural. E dessa relação vai ficar a saudade mais bonita.
Legião fala sobre essas coisas, né? O álbum anterior ao Tempestade, o Descobrimento do Brasil, era um álbum sobre despedida. Então, chorar a morte do Renato Russo, se lamentar, é meio que não entender também a Legião Urbana. Saber se despedir, acho isso muito legal.
A gente sente, todo mundo que gosta de Legião sente saudade, claro, do Renato Russo. Mas não lamenta, sabe? Agradece, ergue a cabeça, vai em frente e supera.
Pode indicar um caminho pra conhecer a banda?
Acho que Eduardo e Mônica e Faroeste caboclo são ótimas portas de entrada. Mas, também, não sei se essas músicas fora do seu contexto, do seu tempo, têm efeito. Não sei como será passada essa tocha, se é que será passada. Eu não saberia dizer um caminho.
Tenho a impressão que a galera que nasceu nos anos 1980 são os últimos dos moicanos legionários. Por outro lado, eu vejo que tem uma galerinha aí de vinte anos que gosta bastante de Legião. A minha fonte pra essa informação são os vídeos postados no insta, dos shows que o Dado e o Bonfá fazem. Acho que Legião é Legião porque não tem método. Tu é tocado ou não. É meio que acaso, sabe, tu tem que estar no lugar certo na hora certa.
E outra coisa que eu acho legal na Legião: não é cult. E tomara que nunca seja. Tomara que ninguém goste de gostar da Legião. Tomara que ninguém diga que gosta da Legião assim como algumas pessoas dizem que adooooram Chico Buarque. Mas, finalizando, o método, na minha opinião, é esse: escutar, seja ao acaso, seja através de alguém, uma música. Se gostar, vai atrás de tudo. Se não for atrás, problema seu.
Eu estou com 44 anos, sou oito anos mais velho que o Renato Russo. E é claro que hoje eu examino algumas letras dele, algumas entrevistas, coisas que ele fala, e tu vê certos traços de alguém com a sua idade nas letras do primeiro álbum. A partir do segundo, as letras já mostram que ele amadurece.
Ele tem um processo de amadurecimento de 1984 para 86 muito grande. E eu mesmo, eu sendo mais velho que ele, oito anos, eu não sinto, sabe, que o Renato ficou defasado. Eu ainda me reporto a ele, imaginariamente, como um guia, como um mentor. Como um amigo também, como ele sempre foi, mas principalmente esse mentor. Claro que ele não é mais o mesmo mentor pra mim do que quando eu tinha quinze anos de idade. Mas ele ainda é enigmático, me surpreende. Ele ainda me fascina, o Renato Russo, que é o que um grande artista consegue fazer. Assim como o Kurt Cobain ainda me fascina.
Faz aí tua antologia. Dez músicas que entrariam no melhor da Legião Urbana.
10 – Faroeste caboclo
9 – Pais e filhos
8 – Andréa doria
7 – Daniel na cova dos leões
6 – Vento no litoral
5 – Há tempos
4 – Índios
3 – Eu era um lobisomem juvenil
2 – Tempo perdido
1 – Metal contra as nuvens