Pensa um homem jaguara

Tudo as polícia tava atrás dele: a federal, a brigada, até os guardinha que cuida de pixação na praça tava no rastro dele. Digo: mas o que que você fez, homem de Deus? Não, deixa quieto. 

Só sei que ele tava lá com a tronozeleira eletrônica, sabe. Daqui prali, só podia ir no mercadinho, que aquele troço apitava lá na polícia e os homem vinha tudo ver onde que ele tava, se ele varava aquele limite, né. Ah porque eu tenho que levar o cachoro passear, diz ele. Não: era daqui até ali. O cachorro que cague entremeio. 

Aí foi assim até que o loco ele decidiu largar. Que o juiz lá decretou prisão pra ele, ia pra cadeia de vereda, o traste. Bá… Aí ferveu a guarapa. Que o cara esse que eu te conto ele não era flor que se cheire, mas na hora que apertava o botão… o dele, no causo, aí era pernas pra que te quero.

Mas foi de cinema, rapaz! A fuga. Não, se eu te conto você não me acredita. 

Diz ele: vou no natal. Que decerto pensou que no natal ia tá mais flouxa a aduana, essas coisa. As pessoa tudo feliz tomando sidra, ele: nem vão me dar bola. Ah tá.

Primeiro ele saiu de casa, um dia antes. Que ele morava num predião ali perto do Fórum, novo. Diz que soltou a tronozeleira – não sei de que jeito, que esse troço não é assim só desparafusar, não sei se você já viu uma – soltou e saiu de casa, de noite. As câmara mostram tudo: ele enchendo a camionete de trabesseiro, mochila, ração de cachorro e aquele baita pitbull que ele tinha, um sem oreia. 

Tá, beleza. Isso foi que foi, atravessou o estado e a polícia até aí nada, né. Só ficaram alerta no dia seguinte, que a tronozeleira tem que caregar. Se tu tira da perna, ela continua funcionando mas depois tem que botar na tomada, que nem celular, decerto. Só sei que o loco, quando que a polícia foi na casa dele, o cara já tava lã no Paraguai.

Não, olha as ideia: vou pro Paraguai, diz o jaguara. Que no Paraguai é tudo trambiqueiro, eu vou passar despercebido. Tá.

Chegou na divisa, vem o guardinha – ele lá com tudo as tralha dele, o cachorro, tudo – me dê os documento, diz o guarda. E o caco dá o passaporte. O passaporte paraguaio que ele decerto briqueou dum sacoleiro. O guarda nisso já desconfiou, né. Tá indo viajar por quê?, diz o guarda. E o outro ali, de boca fechada. Passa um papel pro guarda: surdo-mudo. Não, olha, se não é de morer de dar risada!

Surdo-mudo. Só posso falar por escrito, diz. No papel. Que eu tô com um câncer no célebro – óia as ideia! – e o câncer me prejudicou a cabeça… 

Os guardinha não queriam mais nada. Diz eles: pó largar aí essas tuas coisa que nós bamo conversar na delegacia. Ai meu cachorro, não sei quê. Pó deixar aí, que esse aí não faz nada perto do jaguara que tu é.

Jaguara nada. Me diz se não é um jerico, conseguir ser desmascarado no Paraguai!

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